Análise | Coisa Mais Linda – 1ª e 2ª Temporada

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‘Coisa Mais Linda’ é a série brasileira da Netflix criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth que acompanha personagens fortes e bem desenvolvidos durante as décadas de 1950 e 1960. O seriado recebeu sua segunda temporada no dia 19 de Junho de 2020. Confira uma revisão da primeira temporada, acompanhada da análise de sua sequência recente.

Sinopse: Após o desaparecimento de seu marido, Maria Luíza abre um clube de Bossa Nova contrariando o posicionamento conservador da sociedade conservadora de sua época.

 

1ª temporada

Premissa e roteiro

A primeira temporada da série possui um trabalho de roteiro muito cuidadoso. Graças ao capricho aplicado nessa área, a produção consegue estabelecer uma ordem concisa de acontecimentos, que além de gerar curiosidade, também leva a história para frente. Assim, a estrutura seguida pela produção mantém um ritmo constante e muito interessante, que deve encontrar facilidade para cativar seu espectador. 

Além disso, os personagens criados pela obra mostram-se cada vez mais profundos com o passar dos episódios, já que são devidamente explorados como indivíduos que poderiam facilmente habitar o mundo real. Ou seja, as pessoas ilustradas pela série não se parecem de forma alguma com as caricaturas facilmente encontradas em diversas obras de ficção.  Na realidade, a tridimensionalidade de seus habitantes, isto é, suas contradições pessoais e seus paradigmas, são parte do do que os torna tão aliciadores.

Durante os sete episódios que constituem a primeira temporada de Coisa Mais Linda, o conflito é crescente, engajando a  audiência com eficácia. Assim, sempre há uma nova revelação, uma nova intriga e um novo dilema ético que relaciona os personagens e os mantém úteis para o enredo. Além disso cada uma dessas questões possibilita à obra tecer comentários sociais pertinentes – que apesar de incisivos não chegam ao ponto de se tornarem ofensivos à qualquer um.

Infelizmente, há na escrita de alguns dos diálogos a utilização de alguns termos comuns aos dias atuais que não se aplicariam perfeitamente ao vernáculo da época. Portanto, certos termos – incluindo alguns dos palavrões –  podem acabar por lembrar o espectador de que ele está vendo uma obra de ficção, tirando parte da magia da verossimilhança. Em acréscimo, são frequentes os diálogos expositivos, constantemente criticados na escrita de roteiros por serem uma aproximação preguiçosa dos temas abordados pela obra.

Análise coisa mais linda
Netflix/Coisa Mais Linda/ Divulgação

 

Atributos técnicos

Dificilmente se encontra outro fator tão atrativo para a produção do que sua direção de arte que, sem excessos, consegue inserir o espectador na realidade do fim da década de cinquenta. Tudo, desde os penteados e figurinos até as decisões para os cenários e a iluminação, converge para que Coisa Mais Linda conte uma história visualmente atraente e convidativa.

De maneira igualmente bem aplicada, estão presentes os raros efeitos especiais, que funcionam tão bem justamente por não serem aplicados em excesso, como comummente ocorre na era digital, e por haverem sido realizados por uma equipe competente e cuidadosa.

Por outro lado, são perceptíveis, em copiosos momentos, pequenos erros de continuidade aparentemente decorrentes de uma montagem apressada. Em outros termos, é visível que em alguns momentos personagens engajados em uma conversa podem mudar de posição de forma chamativa conforme são alternados os ângulos de câmera. Todavia, por se tratar de um deslize verdadeiramente comum, não se trata de um problema para que se aproveite do desenvolvimento da série.

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Netflix/Coisa Mais Linda/ Divulgação

 

 

Segunda temporada

Premissa e roteiro

Seguindo o padrão estabelecido pelos primeiros episódios, a segunda temporada de Coisa Mais Linda reforça cada um dos pontos positivos e negativos da temporada anterior. Assim, as abordagens da série sobre temas sociais como o machismo e o feminismo, que permanecem em nossa sociedade até os dias de hoje, permanecem afiados como nunca.

A nova leva de episódios ocorre no inicio da década de 1960, com um pequeno salto temporal em relação ao fim da temporada anterior. Contudo, essa que não é uma decisão ruim por conta própria poderia ter sido melhor trabalhada se não fosse tão anti-climática. Em suma, o roteiro estabeleceu em sua primeira estação de episódios um conflito bem definido, que infelizmente acabou substituído por uma questão diferente – porém não mais interessante.

Apesar deste possível demérito, a nova situação proposta pela produção consegue ser sintética dentro de seu próprio arco, mostrando mais uma vez a capacidade da obra de contar uma história envolvente e interessante. Dessa vez, porém, Coisa Mais Linda desenvolve com maior profundidade alguns dos núcleos de personagens, além de inserir outros. Por outro lado, a estrutura de roteiro não se apresenta devidamente alicerçada. Em outras palavras, agora é possível ter a impressão de que, em determinados momentos, a narrativa sofre algumas redundâncias, sem se manter seguindo em frente. Logo, em comparação com o roteiro da temporada antecessora, a nova sequência de episódios não se mostra tão rebuscada.

Análise Coisa Mais Linda
Netflix/Coisa Mais Linda/ Divulgação

 

Atributos técnicos

Como mencionado anteriormente, a maior parte dos elementos narrativos mantém sua qualidade, bem como sua identidade. Por outro lado, nesta temporada pode-se notar uma evolução no trabalho da montagem, que em muito auxilia no desenvolvimento dos personagens previamente estabelecidos.

Outros fatores, como a fotografia quente e viva, assim como o figurino e o uso de música, continuam realizando um trabalho excepcional ao situar o expectador na nova época abordada.

 

Considerações finais

Coisa Mais Linda não deixa nada a desejar em comparação com produções internacionais recentes vistas na Netflix. Igualmente, a produção brasileira atinge uma qualidade superior à de criações muito mais pretensiosas. Por esta razão, não é exagero algum dizer que esta produção deve ser considerada uma das melhores séries brasileiras da atualidade. Afinal, sua sensibilidade a questões sociais atuais importantes não deve ser vista como menos notável do que sua qualidade técnica.

 

 

Por Sergio Sbeghen

 

 

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